segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tarde de cultura e de fartura – Cinthia Kriemler


 Sábado, 16 horas. Termino a maquilagem com um batom cor de tarde. Em seguida pego a bolsa, os livros, o notebook e a filha, que vai inserir pra mim, no Facebook e no Twitter, os acontecimentos do Sarau Multicultural do Anand Rao, para o qual fui convidada. Fui.
Pela cara do porteiro, já sei que é hábito ver passar por ali rostos de todos os tipos e gêneros, com uma mesma pergunta: “Por favor, onde é o apartamento do Anand Rao”? A campainha atende no primeiro toque e dou de cara com Fábio Barros, uma figura muito gente boa que foi um dos anfitriões daquela tarde. Só mais tarde, quando ele fez uma performance com a Nahla Tartuce, é que eu descobri que aquele careca charmoso canta. E canta muito. Lembrei de Boy George no início da carreira, com aqueles olhos miúdos e oblíquos que pareciam saber de tudo, rir de tudo e viver a vida de um jeito só dele.
O apartamento é um estúdio. E é apartamento. De um dos lados da estante-cristaleira, uma mesa com os comes e os bebes (cada um leva o seu, para não ter problema). Do outro, cadeiras para a plateia, cadeiras para os artistas, caixas de som, microfones. No cantinho, Mestre Henrique Inácio, do Brasília Estúdios (sempre incentivando os músicos do DF), comanda o som de todos, escritores e músicos.
Logo de cara, sou raptada por Jorge Amâncio, Negrojorgen, para um bate-papo rápido, porque é ele quem vai entrevistar a mim e ao poeta Alceu Brito Corrêa, que acaba de chegar. Enquanto isso, uma rapaziada alegre, cheia de ansiedade, afina voz e violão. Kika Ribeiro E Jahya são para mim,até aquele momento, uma banda de reggae que vai estar junto no sarau.
Anand Rao está na Bienal, cobrindo esse evento espetacular que o Distrito Federal teve o bom gosto de patrocinar, e eu fico pensando quem será que vai operar a câmera que envia todo o sarau para a internet. E ainda tem os notebooks — o da banda e o meu —, que precisam ser sincronizados, pelas mãos de Talita Keyse e de Fabiana Reis, com a transmissão. É o passo a passo do sarau.
Escuto, então, alguém chamar: “Agnes”. E conheço Agnes Regina, dona da casa e mulher do Anand Rao. Até aí, mera formalidade. Mas Agnes só é formalidade para quem ainda não a conhece. Essa criatura multifacetada me prova que Amélia nunca foi uma mulher de verdade. Agnes Regina é. Ao longo da tarde e início de noite, conheço uma leoa da administração. Ela opera o vídeo, controla as entradas, avisa a hora de parar, fala sobre os e-mails que entram, se levanta, retira copos e pratos sujos da mesa, leva para a cozinha e joga fora nas latas de lixo seletivas, dá uma olhada no trabalho do pessoal dos notebooks, repercutindo o sarau em outros perfis das redes sociais, sorri, fala duas palavras, retoma a mesa de trabalhos e faz um “psiu” discreto para os mortais que se empolgam na conversa paralela. Agnes Regina é que é mulher de verdade.
Os trabalhos começam. Os integrantes de Kika Ribeiro E Jahya se entreolham e mandam a primeira música. Eu arrepio. Como é que uma mulher pequena daquelas solta um vozeirão sem tamanho? Kika é útero, força da natureza. Os violões brincam, a percussão não vai acima do que pode, nunca. Nem o pandeiro. E os meninos se soltam. Os da Jahya (que, me conta a Kika, quer dizer “poder e conquista) e o convidado especial que os acompanha naquela tarde: Davi Kaus, da banda “Vitrine”, que manda muito. A internet começa a bombar. Pronto, está quebrado o clima inicial.
Jorge Amâncio lê os poemas da Sônia Porto, que nos acompanha pela internet de Porto Alegre, onde mora. Depois, conversa comigo e descobrimos que somos ambos cariocas e tijucanos. E ambos escritores. Quer saber como foi a minha primeira vez. Com as palavras. Lê trechos do meu livro e me fez ler outros. Lembro como é bom demais estar no meio de gente que gosta do que a gente gosta. Naquele dia, é a poeta que fala. Mesmo sendo contista e cronista, caminho pela poesia com timidez, mas com igual prazer.
Em seguida, o poeta Alceu Brito Corrêa fala da sua trajetória na literatura. Conta histórias de como seu pai lhe dava bons livros para ler, e que ganhou Os Lusíadas quando ainda era garoto. Gostou. E tomou gosto, de quebra, também pela escrita. Faz poemas de puro Concretismo. Coisa difícil. Pra quem é mesmo poeta.
Agnes Regina nos dá notícias de que Anand Rao está na Bienal do Livro, mas queria estar ali também, conosco. Estava. Não só porque falamos dele o tempo todo, mas porque ele é o sarau, essa ideia doida e perfeita que começou e nunca mais vai parar, porque cultura não tem o direito de parar.
Um cabelo moicano (ou seria hare krishna?) aparece bem na minha frente e sorri. É o JP França Fernandes, o JP, um mix de voz, guitarra, charme, protesto e alegria que logo toma conta do ambiente. Com ele, Nahla Tartuce França, cantora, esposa. E começa a rolar uma apresentação de Fábio Barros e Nahla, música e performance. Genesis. Só esquentando para a jam session que vem em seguida, com JP, Fábio, Nahla, ........... (o percussionista da Kika Ribeiro E Jahya), e Davi Kaus. E acontece Rita Lee: “...nem toda feiticeira é corcunda...nem toda brasileira é...” A internet, bombando. Pedem música de Brasília. JP canta Móveis Coloniais de Acaju e a galera dança. Logo depois, rock. E rola delírio na provocação de guitarra e violão entre JP e Davi Kaus. Coisa de gente muito grande. E tem mais Kika Ribeiro E Jahya, pedindo votos para a banda poder participar da Calourada (seis bandas serão escolhidas para tocar nos grandes palcos, no aniversário de Brasília). É música boa na veia. No Sarau do Anand Rao.
Fôlego. Mais uma rodada de poemas. Só que, dessa vez, os do Alceu, os meus e os de Jorge Amâncio, que são daqueles que mexem, cutucam o comodismo. Tudo de bom. Peço ao JP um fundo musical. Ele topa. Uma experiência que o próprio Anand Rao já faz, juntar música e poesia. E que dá certo. E a gente começa um bate-texto com dedilhado da guitarra acompanhando. Eu arrepio de novo e a garganta aperta. Emoção demais na carne de todos. Dá pra ver.
Chega a hora de vir embora. A filha que é que me arrasta de lá. Mas eu não vou embora. Apenas saio. Carrego comigo aquele dia de puro tesão. Acho que me deixei um pouco por lá, também. A gente leva e traz coisas daquele sarau. Coisas importantes. Lá fora, já está escuro. Dentro, tudo é luz. Luz forte da energia acumulada. Energia de arte, de música, de cultura. Um sentimento de que tudo funciona quando a intenção é uma só. Lá dentro, ninguém é velho ou novo demais. Ninguém tem cara de deboche, ou de sono, ou de indiferença. Todo o mundo se enxerga, se escuta. E aprende. Internaliza. É uma orquestra afinada. Maestrina: Agnes Regina. Coro: quem for da arte, da música, da literatura; quem for do bem. É sintonia. Sinfonia. A sinfonia que Mestre Anand Rao criou para os sábados. Amém.

Cinthia Kriemler é relações públicas, contista, cronista, poeta, e participou do Sarau do Anand Rao no sábado, 14 de abril. kriemler@gmail.com

Um comentário:

  1. O PAPEL E O POETA

    Não quero mais ser um coadjuvante
    Para ser lembrado apenas por um lapso.
    Estou farto de pensamentos disfarçados em abstrato
    Ziguezagueando por entre linhas de raciocínio.

    Quem é o criador?
    O poeta que se torna escravo de suas musas
    Ou o papel que as alforria silenciosamente?
    Perguntas sem respostas
    Cuja desculpa se encontra
    No último parágrafo.

    Cansei de ser o fardo de uma pena
    E depósito de frustrações.
    Quero libertar-me desse jugo
    E prender-me em minhas próprias idéias – ou:
    Ser o personagem da minha própria pessoa.

    Quero atuar em meu próprio mundo,
    Ser a minha gramática,
    Sem uma sentença que me condene.

    Quero descobrir o meu verdadeiro papel,
    Poder enxergar a mim mesmo.
    Não sobre uma escrivaninha fria e empoeirada
    Que o tempo deixou no esquecimento,
    Mas sim em cada alma,
    Em cada poesia.


    *( Agamenon Troyan )

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