segunda-feira, 15 de abril de 2013

[ poemas d’A CIDADE FRITA ], do Poeta piauiense Rodrigo MLeite



previsão do tempo
o morto esboçado no chão com sua moto
não é lembrado no Mercado Central
onde cresceu e há anos não aparece
o recém nascido Evangelina Rosa grita
[primavera rouca
coro que anoitece os olhos do pai
pétalas de aço enferrujado rasgam o asfalto
Frei Serafim meio do dia da
quentura dos infernos
ônibus tiram fino das garotas CPI todas iguais
a cidade respira pulmões encardidos
e o som vibrante de linhas com cerol nos
[postes do Mafuá
trilha o cotidiano de almas estendidas em varais


despertar
ao escritor Assis Brasil

urubus nos postes do Parque Piauí
esperam miúdos de frango jogados na mesma rua
onde Assis caminha com o Brasil no peito
na cabeça na caneta rumo ao mercado

uma carroça de massará
range ferro com ferro
a ferrugem a madeira o capim
o chicote nas costas do animal

o bater de asas da liberdade
rumo à carniça

o sino do motoqueiro do gás
o silêncio de Assis

na manhã: não importa
todos os ruídos são despertos


a Tabuleta é um bairro pesado

durante o dia feéricas ondas de calor com areia
misturadas ao óleo diesel borracha ferrugem e saudade
envelhecem acontecimentos presentes

torrão chapado no corisco

acabaram com teu engarrafante torto balão
teu centro reformaram reto, encruzilhante
porto das miragens litorâneas que brotam
[do asfalto meio dia
Av. Barão de Gurguéia com a BR 343

à noite, junto de gestos precários
homens sem sombra, partes da clandestina escuridão
são destruídos pelo peso de grandes Scanias
[que rompem pra Timon carregadas de sal

adiante, zona sul, esquina da Mapil
garotas de esqueléticas formas, comedoras de brasa
cuspidoras de fogo!
atiçam corações feridos de aço e sucata,
esmagados pelo esquecimento

MLEITE, RODRIGO / 1989
POEMAS D’A CIDADE FRITA / 3ª EDIÇÃO
EDIÇÕES PAISSANDU / TERESINA: 2013
RODRIGOEMELEITE@GMAIL.COM
AMUSAESQUECIDA.BLOGSPOT.COM.BR

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