Sol escaldante no semiárido nordestino. A inclemência das secas há tempo
arrasa a terra e a vida do sertanejo. Ainda assim, “apesar das dolorosas
tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, ele
alimenta a todo transe esperanças de uma resistência impossível”, narrou
Euclides da Cunha (1866-1909) em
Os sertões. Esse texto é de 1902. De
lá para cá muito mudou, mas ainda hoje a complexidade do sistema climático
continua a desafiar a ciência; e as consequências da seca na região ainda nutrem
acirrados debates entre acadêmicos, técnicos e gestores.
Como entender a origem das agruras climáticas que afligem o Nordeste de nosso
país? “As secas costumam ser ocasionadas por dois fenômenos climatológicos de
escala global”, explica o climatologista José A. Marengo, do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe). O primeiro deles é o El Niño. Trata-se de um
aquecimento incomum das águas superficiais do oceano Pacífico – o que origina,
na costa oeste da América do Sul, índices de evaporação e precipitação bastante
elevados.
E, por incrível que pareça, essa mudança ocasional em um oceano distante é
capaz de alterar, também, os padrões de circulação atmosférica no território
brasileiro. Uma das consequências do El Niño é o decréscimo – por vezes radical
– no regime das chuvas sobre o Nordeste de nosso país. A periodicidade desse
fenômeno natural é incerta, mas ele costuma ocorrer em ciclos de dois a sete
anos.
Por incrível que pareça, uma mudança ocasional em um oceano
distante é capaz de alterar, também, os padrões de circulação atmosférica no
território brasileiro
O segundo fenômeno responsável pelas sucessivas secas na região tem um nome
ligeiramente mais complicado: é o que climatologistas chamam de variação do
gradiente de temperatura da superfície do Atlântico Tropical. O conceito é
bastante simples. De tempos em tempos, as águas do Atlântico Tropical Norte –
região oceânica entre o Equador e a latitude 15° Norte – ficam mais aquecidas
que as águas do Atlântico Tropical Sul – localizado entre o Equador e a latitude
15° Sul. Isso acarreta notórias alterações nas zonas de precipitação.
“Onde temos águas mais quentes, há mais evaporação; e maiores taxas de
evaporação favorecem a formação de chuvas”, ensina Marengo. Quando as águas do
norte se aquecem, portanto, a precipitação tende a se concentrar por lá –
abandonando parte do Atlântico Tropical Sul e reduzindo significativamente o
índice pluviométrico do Nordeste do Brasil.
É comum confundir os conceitos de seca e estiagem. Vale o esclarecimento. “O
clima da região Nordeste é semiárido, o que significa que o ano é dividido em
estações chuvosas e estações de estiagem”, explana Marengo. “Seca é quando não
chove nos meses em que deveria chover.” No caso do semiárido nordestino, há
expectativa de chuva entre janeiro e junho; e ausência de precipitação é
esperada entre julho e dezembro.
“Com nossos sistemas de previsão meteorológica, somos cada vez mais capazes
de predizer os períodos de seca”, afirma Marengo (ver ‘Incertas, mas
previsíveis’). “Mas não podemos prever seus impactos, pois a falta d’água
costuma trazer sérias consequências sociais e políticas.”
Incertas, mas
previsíveis
Predizer o clima e o tempo é sempre um desafio para a
ciência. “Mas, no caso das secas do Nordeste, os índices de acerto nas previsões
têm sido bastante satisfatórios”, comenta Marengo. “Estações meteorológicas
automáticas distribuídas nos mares e no continente coletam dados precisos sobre
temperatura, pressão e diversas outras variáveis climatológicas”, que permitem
aos meteorologistas elaborar cenários com grau razoável de
confiabilidade.
Atualmente, porém, mesmo com sistemas sofisticados, não
somos capazes de prever o tempo com mais de três meses de antecedência. Por
exemplo: em setembro, pode-se ter alguma acurácia nas previsões para outubro,
novembro e dezembro. A previsão oficial do governo para o Nordeste é anunciada
normalmente em janeiro – quando já se sabe como será o regime de chuvas durante
os meses de fevereiro, março e abril.
Uma curiosidade: ainda hoje vivem
os chamados ‘profetas da chuva’ – figuras locais que, entre o misticismo e a
tradição, lançam palpites sobre o regime pluviométrico do sertão. Marengo
confidencia: em algumas reuniões entre meteorologistas, esses inusitados magos
do semiárido são convidados a participar. “Em muitos casos, o que eles especulam
por métodos tradicionais se aproxima do que nossa ciência prevê”, comenta o
pesquisador. “Não há nada de errado no fato de a ciência dar ouvidos à
experiência.”
Literatura e realidade
A figura clássica do retirante talvez não exista mais. O camponês castigado
pela falta d’água, com seu gado magro a definhar na caatinga, é parte de um
momento pretérito que, ao que tudo indica, foi superado. Pelo menos em parte.
“Não vemos mais aquele êxodo em massa, como retratado em
Vidas secas,
de Graciliano Ramos [1892-1953]”, comenta o engenheiro Marcos Freitas, da
Agência Nacional de Águas (ANA). Nos idos passados, levas de nordestinos
deixavam suas terras e rumavam para as grandes cidades. Hoje, no entanto, a vida
dos sertanejos parece menos difícil. “Parte desse sucesso se deve às políticas
governamentais de incremento de disponibilidade hídrica”, diz o engenheiro da
ANA.
Açudes, cisternas, carros-pipa. São algumas das principais estratégias
adotadas nas últimas décadas para atenuar a falta d’água em muitos municípios do
semiárido. Méritos ao Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs),
vinculado ao Ministério da Integração Nacional (MIN). “É preciso reconhecer os
avanços, sim, mas estamos distantes de uma situação ideal e ainda há muito a se
fazer”, pondera Freitas.
Amanhecer semiárido
Especialistas estão de acordo: “O que caracteriza a seca no semiárido
nordestino não é a falta pura e simples de água, e sim a forma lotérica como as
chuvas se distribuem no tempo e no espaço”, explica o engenheiro agrônomo João
Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco. Um só trimestre pode registrar até 90% da
precipitação anual.
“Desafio, portanto, é armazenar essa água de maneira eficiente e segura para
que ela seja distribuída de maneira igualitária durante o ano”, diz Freitas.
“Mas não basta armazenar; é preciso atentar para a qualidade da água estocada”,
alerta. Esgoto nos rios, resíduos sólidos a poluir cursos d’água são alguns dos
problemas que insistem em permanecer em pauta – não somente no Nordeste, mas em
todo o Brasil. “Tratamos apenas algo em torno de 60% de nossos esgotos”, diz
Freitas.
- Nas últimas décadas, muitos
municípios do semiárido têm adotado estratégias para atenuar a falta d’água,
como o uso de açudes, cisternas e carros-pipa. (foto: Ana Paula Couto/ MIN)
Outro desafio, segundo ele, é incentivar o uso mais racional dos recursos
hídricos na agricultura do semiárido. Os sistemas convencionais acarretam
desperdício notório de água. “Por isso devemos incentivar a irrigação por
gotejamento ou microaspersão”, sugere o engenheiro. “São muito mais eficientes,
pois evitam perdas por evaporação.”
O terceiro grande desafio, para Freitas, é o abastecimento de populações
difusas. Aglomerados urbanos, em geral, contam com infraestrutura hídrica
satisfatória. Mas habitantes de paragens remotas sofrem. “Longas caminhadas,
quilômetros a fio com uma lata na cabeça para buscar água; isso ainda acontece”,
lamenta Freitas.
Dado desolador: segundo o engenheiro da ANA, no Brasil perde-se de 30% a 40%
de água nos processos de distribuição. Motivo: infraestrutura precária –
vazamentos, tubulações avariadas, desvios clandestinos...
Sertão: retrato institucional
A última seca do Nordeste foi registrada em 2012. E os baixos índices
pluviométricos de 2013 confirmam: esta seca ainda perdura. Quanto a 2014, pouco
se sabe. Previsões de janeiro poderão trazer melhores notícias. Ou não. Segundo
Marengo, as secas tendem a durar de um a dois anos. Não é incomum, entretanto,
que se estendam por tempo maior. Na década de 1950, por exemplo, a terra sedenta
do semiárido permaneceu sob esse regime implacável por nove anos.
Freitas: “O avanço do conhecimento divide as ciências, mas
devemos superar a visão compartimentada do saber para solucionar os problemas do
semiárido nordestino”
“Mas hoje, mesmo no segundo ano consecutivo da seca, os habitantes da região
não têm tido graves problemas de abastecimento”, observa Freitas. É a prova,
segundo ele, de que as políticas públicas estão funcionando a contento.
“Recentemente, o governo federal ampliou as medidas ao anunciar um aporte de R$
9 bilhões em uma série de iniciativas, como a prorrogação das operações de
crédito rural, a renegociação das dívidas agrícolas e a expansão dos programas
Bolsa Estiagem, Garantia-Safra e Operação Carro-Pipa”, informou o MIN à
Ciência Hoje. As ações devem atender a mais de 10 milhões de pessoas
que vivem nas regiões afetadas pela imprevisibilidade do clima.
“Mas, infelizmente, é comum haver descontinuidade entre um governo e outro”,
aponta o engenheiro da ANA. “Um estado ou município pode ter boa estrutura
institucional durante um mandato; mas ela pode ser totalmente desmobilizada no
governo seguinte.” Para Freitas, as instituições ainda funcionam de forma
precária – sem um quadro efetivo de servidores permanentes e concursados.
Para os pesquisadores, a solução para o semiárido requer visão integrada. “O
meteorologista preocupa-se com as chuvas; o agrônomo com as culturas agrícolas;
o hidrólogo com a vazão dos rios; o economista com os impactos econômicos; e o
político poderia auxiliar no planejamento orçamentário e nas negociações de
questões federativas”, aponta o engenheiro da ANA. “O avanço do conhecimento
divide as ciências, mas devemos superar a visão compartimentada do saber para
solucionar os problemas do semiárido nordestino.”
A contenda do
velho ChicoImpossível falar de seca no Nordeste sem mencionar a
transposição do rio São Francisco. A obra é das mais polêmicas – e tem dividido
opiniões desde o início. Um dos maiores críticos ao projeto é o engenheiro João
Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo ele,
a
transposição é uma grande fraude técnica. “Ela permanecerá no imaginário
como a solução para a seca, e não é”, censura Abner. “Essa obra não vai terminar
nunca.” O governo rebate: o MIN informou à
Ciência Hoje que a obra
estará concluída em 2015.
Um dos pontos de disputa é o fato de que a
transposição, segundo seus críticos, é uma obra que beneficiará o grande capital
– grandes propriedades agrícolas e industriais –, e não as populações difusas
que carecem de abastecimento. “Não é verdade”, contra-argumenta o MIN. “Os
canais dos eixos Leste e Norte, por exemplo, levarão a água do São Francisco
para 325 comunidades difusas.” Segundo Abner, entretanto, são os financiamentos
de campanhas eleitorais – por parte das empreiteiras responsáveis pela obra –
que motivam a controversa transposição.
Henrique KuglerCiência
Hoje/ RJ
Texto originalmente publicado na
CH 308
(outubro de 2013).